sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O Incômodo Censo Agropecuário

O último censo agropecuário trouxe verdades incômodas, que atiçaram a ira do agronegócio brasileiro. Afinal, a pobre agricultura familiar,com apenas 24,3% (ou 80,25 milhões de hectares) da área agrícola, éresponsável "por 87% da produção nacional de mandioca, 70% da produçãode feijão, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz, 58% do leite, 59%do plantel de suínos, 50% das aves, 30% dos bovinos e, ainda, 21% dotrigo. A cultura com menor participação da agricultura familiar foi asoja (16%). O valor médio da produção anual da agricultura familiarfoi de R$ 13,99 mil", segundo o IBGE. Quando se fala em agriculturaorgânica, chega a 80%. Além do mais, provou que tem peso econômico,sendo responsável por 10% do PIB Nacional. Acontece que a agricultura familiar, além de ter menos terras, temmenos recurso público como suporte de suas atividades. Recebeu cercade 13 bilhões de reais em 2008 contra cerca de 100 bilhões doagronegócio. Portanto, essa pobre, marginal e odiada agricultura tempeso econômico, social e uma sustentabilidade muito maior que osgrandes empreendimentos. Retire os 100 bilhões de suporte público doagronegócio e veremos qual é realmente sua sustentabilidade, inclusiveeconômica. Retire as unidades familiares produtivas dos frangos esuínos e vamos ver o que sobra das grandes empresas que se alicerçamem sua produção. Mas, a agricultura familiar continua perdendo espaço. Aconcentração da terra aumentou e diminuiu o espaço dos pequenos. Atendência, como dizem os cientistas, parece apontar para odesaparecimento dessas atividades agrícolas.Porém, saber produzir comida é uma arte. Exige presença contínua,proximidade com as culturas, cuidado de artesão. O grande negócio nãotem o "saber fazer" dessa agricultura de pequenos. E, bom que se diga,não se constrói uma cultura de agricultura de um dia para o outro. AVenezuela, dominada secularmente por latifúndios, não éautossuficiente em nenhum produto da cesta básica. Exporta petróleopara comprar comida. Chávez, ao chegar ao poder, insiste em criar umcampesinato. Mas está difícil, já que a tradição é fundamental parahaver uma geração de agricultores produtores de alimentos. O Brasil ainda tem - cada vez menos - agricultores que tem a artede plantar e produzir comida. No Norte e Nordeste mais a tradiçãonegra e indígena. No sul e sudeste mais a tradição européia deitalianos, alemães, polacos, etc. É preciso ainda considerar apresença japonesa na produção de hortifrutigranjeiros nos cinturõesdas grandes cidades. Preservar esses agricultores é preservar o "saber fazer" deprodutos alimentares. Se um dia eles desaparecerem, o povo brasileirona sua totalidade sofrerá com essa ausência. Para que eles semantenham no campo são necessárias políticas que os apóiemostensivamente, inclusive com subsídio, como faz a Europa. Do contrário, se dependermos do agronegócio, vamos comer soja,chupar cana e beber etanol.

Roberto Malvezzi, Gogó - Agente Pastoral da Comissão Pastoral da Terra
Fonte: Adital

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